Carlos Martins propõe “um novo olhar para o cante” com sons do Mediterrâneo e muito “Vagar”

Carlos Martins já pensava este álbum desde 2019, quando fez uma “pequena experiência”, mas parou devido à pandemia

O músico Carlos Martins propõe “um novo olhar para o cante” alentejano no seu novo álbum, “Vagar”, que definiu como “coisa fora do comum”, ao combinar instrumentos, um sabor do Mediterrâneo e o saber do jazz.

Disponível desde ontem, “Vagar” “é uma nova maneira de olhar para o cante, de uma maneira como nunca se olhou para o cante até agora”, disse o músico em entrevista à agência Lusa.

“Habitualmente o cante não é cantado com instrumental. Às vezes é acompanhado de uma guitarrinha ou alguma coisa do género”, explicou o músico e compositor, um nome do jazz, saxofonista, divulgador e professor. “Mas um grupo tão alargado”, com “uma série de instrumentos e de arranjos [musicais] que reorganizam todo o sistema, acho que é uma coisa fora do comum.”

“Vagar” marca uma dupla estreia do músico: como autor de letras, e como disco totalmente cantado. Em doze canções, Carlos Martins assina as líricas de “Ausência Presente”, “Eternidade (no céu um calor frio)” e “Mediterrâneo (Mães sem Lar)”; as restantes nove são de José Luís Peixoto.

Martins disse que lhe “agradou imenso” a experiência de escrever, algo que sempre fez e ao qual não é estranha a sua “consistente biblioteca”.

“Fui roubar aos melhores e depois construí as minhas próprias ideias a partir daí. Como eu gosto muito de ler poesia, não estava propriamente fora do meu território”, assegurou à Lusa.

Sobre o trabalho de composição, explicou: “Criei estruturas harmónicas e melódicas que fossem mais ou menos minimalistas, para fazer um contraponto ao minimalismo do cante. O cante é uma música muito particular, minimal, vive muito da expressão, do sentimento, daquele conjunto, daquela respiração.”

O álbum apresenta “formas de olhar para o cante, para o Alentejo e para o vagar, de quem já saiu, voltou, e enriquece a maneira como se olha para o nosso próprio Alentejo”, acrescentou Carlos Martins, nascido no concelho de Grândola, com um percurso de mais de três décadas no jazz, que o levou mundo fora.

“Vagar”, defendeu o músico, “é uma viagem pela planície e pelo mar Mediterrâneo”, de “onde vem o cante e uma certa forma de improvisar no jazz.”

Carlos Martins já pensava este álbum desde 2019, quando fez uma “pequena experiência”, mas parou devido à pandemia e retomou o projeto em meados do ano passado.

Para o concretizar, constituiu o Grupo ProCante, de cantadores “escolhidos a dedo”. É formado por Hugo Bentes, Pedro Calado, Francisco Pestana, Luís Aleixo, Carlos Franco Nobre, Moisés Moura, Luís Soares e Francisco Bentes, que foram “fundamentais para adaptarem as palavras de José Luís Peixoto ao cante.”

“Algumas palavras como estão no disco, não são as mesmas que o Peixoto escreveu. Há pequenas alterações que, digamos, são praticamente sagradas neste disco, porque fazem com que os cantadores sintam, respirem e cantem a música da mesma maneira, e que possam no fundo sentir que a tradição do cante e a maneira de cantar está toda lá presente.”

Os cantadores “adaptaram algumas entradas e algumas formas de dizer as palavras ao cante”, explicou. “Depois, dessa forma de dizer, [foi necessário] alterar a música, para que voltasse a ser possível manter a estrutura toda. Foi um trabalho de dias e dias, de encontros, e mais encontros.”

Do elenco do álbum faz parte o cantor Manuel Linhares, “uma voz única”. Sobre a sua participação, Carlos Martins afirmou que “era importante criar uma ligação entre uma certa forma de improvisar, mais livre, ligada ao jazz, e a capacidade de flutuar com melodias meio árabes e sefarditas, que pudessem, no fundo, voar sobre uma estrutura rítmica que tinha na cabeça.”

“Sempre achei que a voz do Manuel Linhares era a voz que podia fazer isso, de uma forma que juntasse, de uma maneira não tradicional, esse lado mediterrânico da música que eu queria imprimir no disco e fizesse a ponte entre o Cante alentejano e o Mediterrâneo, de onde vem o cante.”

A escolha do título, “Vagar”, é uma homenagem à filosofia de vida alentejana, disse o músico à Lusa; uma filosofia que concilia tradição e modernidade no seu próprio tempo, constituindo em simultâneo um alerta para a voracidade com que vivemos e até para o “consumismo atroz” que nos cerca.

“A forma alentejana de viver é altamente sugestiva pelo respeito de várias ecologias, e o planeta Terra e a nossa vida precisam de desacelerar. Precisamos de respeitar a natureza, as ecologias de cada um, respeitar uma vida que não é só feita da violência neoliberal. O Alentejo em si é a grande lição, a grande inspiração.”

O disco é, “definitivamente, um manifesto pela desaceleração, mas também pretende lembrar às pessoas a função espiritual da música e não pensar só nos [seus] termos comerciais”.

Além de Carlos Martins, no saxofone tenor, o álbum conta com Alexandre Frazão, na bateria, Carlos Barretto, no contrabaixo, João Bernardo, no piano e sintetizador, Joana Guerra, no violoncelo e efeitos, e Paulo Bernardino, no clarinete baixo e efeitos. André Fernandes, em guitarra, e João Barradas, acordeão, são músicos convidados.

Martins é o compositor de raiz de todos os temas, exceto dos tradicionais, que recria: “Romã (A Romãzeira do Meu Quintal)”, “Rouxinol (Negros do Sado)” e “Extravagante (Um Rapaz Brilhante)”.

O álbum vai ser apresentado no próximo dia 17, às 21:00, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa – e será apresentado “de forma inédita, ao juntar a projeção das fotografias [do Prémio Pessoa] José Manuel Rodrigues”, que também estão na edição em CD.

 

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